Difamado e humilhado devido a falsas informações em um veículo de comunicação, Rafael Bueno conta a história que mudou sua vida
________
Quem diria que falsas informações acabariam com a carreira do bem sucedido empresário do ramo de brinquedos educativos, Rafael Bueno? Ele, que sempre foi avesso a publicidades e jornalistas, por um azar do destino se tornou mais uma vítima de boatos originados do mundo da comunicação.
Tudo começou quando sua esposa, a dentista Clotilde Pedrosa Bueno, se matou. Um mistério rondava o caso, uma vez que ela não estava doente e muito menos atravessava algum tipo de crise. Apenas sofria de insônia e sempre tomava meia pílula de um ansiolítico para dormir. No entanto, um dia, tomou um frasco.
Por Rafael ser um empresário conhecido, dono da famosa empresa de brinquedos educativos, Brincando, diversos jornalistas e colunistas faziam especulações sobre o que teria originado o suicídio de sua mulher. Mas, fingia que não ligar e nem aceitar possíveis atos de solidariedade e compaixão.
Um dia, como outro qualquer, tocou o telefone de seu escritório. Este era o telefonema que prometia mudar, aos poucos, a sua vida por completo. Era Helena Beltrão. Mais uma jornalista querendo entrevista. Rafael tentou se esquivar, mas, ela insistia, dizendo que admirava seu trabalho e queria fazer uma matéria para sua revista semanal. Inclusive, seria uma maneira para que os boatos que cercavam a morte de sua esposa finalmente acabassem. Vencido pela insistência, o empresário acabou a recebendo em seu escritório no dia seguinte, pela manhã.
Como combinado, lá estava Helena no local e horário marcado. Para Rafael, era jovem, bonita e de rosto confiável. Começando a apuração, ela perguntou sobre sua formação, trabalho e prêmios que havia recebido pelos brinquedos didáticos que projetou. Depois, queria saber como conheceu sua falecida esposa. Emocionado, começou a descrever. A jornalista percebeu e achou melhor continuar no dia seguinte, de forma que Rafael ficasse mais a vontade.
No outro dia, a conversa fluiu melhor. O empresário simpatizava cada vez mais com a jornalista. Trocavam e-mails constantemente. Com o tempo, estes foram ficando mais íntimos. Trocas de carinho como “Querida Helena” e “Querido Rafael” começaram a acontecer. Ela começou a revelar algumas intimidades de sua vida. Chegou até a falar que, quando casada, se apaixonou por outro homem e se tornou amante dele durante algum tempo. Então, Rafael respondeu que todas as pessoas casadas sentem atração por outra pessoa. Além disso, complementou que algum dia todos enganam os cônjuges, não havia ninguém que não fizesse isso.
Durante uma de suas entrevistas, Helena sugeriu que elas fossem realizadas à noite, na casa de Rafael, já que por ele ser um homem muito ocupado, ela ficava constrangida de tomar seu tempo no escritório. Na casa do empresário, a jornalista procurava ser o menos invasiva possível. Até para olhar fotografias espalhadas pelos móveis ela pedia permissão.
Rafael sempre ficava muito a vontade ao conversar com Helena. “Sempre fui um homem lacônico, me expressava melhor escrevendo. Com ela me tornei loquaz, um ‘tagarela’, quase”, afirmou. Ao ser perguntado sobre os vizinhos, o empresário disse que tinha uma relação amistosa com todos, exceto com a moradora do mesmo edifício, Mercedes Silvano.
Em mais um dia de entrevistas, Helena sugeriu que Rafael lhe mostrasse seu quarto. Não vendo problema algum, ele a levou. Helena ficou maravilhada com o local e ao sentar na cama, começou a se insinuar discretamente para o empresário. Até que, finalmente, ela falou que estava apaixonada por ele e logo o agarrou e o beijou. Rafael conseguiu se desvencilhar e, mentindo, disse que não sentia o mesmo desejo por ela. Ele afirmou que a admirava e queria que fossem amigos para sempre. Entretanto, era notório que Helena não queria apenas amizade. Quando Rafael perguntou quando iam se ver novamente, ela respondeu de uma forma “seca” que não havia mais necessidade de entrevista. O empresário mal sabia o que ainda estava por vir.
Após uma semana, no momento em que Rafael estava projetando um brinquedo, sua secretária Elvira de Souza abriu a porta e o entregou uma revista a qual ele era capa. Era a revista semanal de Helena. Curioso para ver como havia ficado a matéria, se assustou diante do título “Violento e devasso”. O texto dizia absurdos sobre o empresário. Dentre eles, que Rafael admitiu em um e-mail para a repórter – que inclusive estava transcrito em uma das dez páginas da matéria – que adultério era algo comum e aceitável. Sua vizinha, Mercedes Silvano, também deu entrevista e afirmou que o empresário era um homem violento e devasso, que sua falecida mulher sofria muito e a causa do suicídio com certeza partiu disso. Além disso, ela mentiu dizendo que ele odiava crianças e os pais eram todos “imbecis” ao acreditarem na propaganda da Brincando. Por fim, Helena afirmou que Rafael, em uma das entrevistas, a levou a força para o quarto e a estuprou.
Diante de todas as informações pavorosas e falsas divulgadas pela jornalista, que parecia idônea e com caráter, Rafael ficou perplexo. Logo ligou para o advogado de confiança, Alexandre Duarte, que foi as pressas para seu escritório. Ao analisar as informações e entrar em contato com alguns entrevistados, o advogado acreditava ser impossível provar a falsidade da acusação de Helena. Os porteiros declararam que ela havia ido à casa de Rafael inúmeras vezes, sendo que na última saiu com o vestido rasgado e falando que o empresário era um tarado. Além disso, mesmo a vizinha Mercedes Silvano confirmando a mentira em sua declaração, ela não havia bens e uma ação indenizatória contra ela não daria em nada. Rafael Bueno, dono da famosa Brincando, estava desmoralizado. Vendeu a fábrica e se tornou, de fato, um recluso.
Cerca de dois meses após o incidente lamentável, Rafael recebeu um telefonema. Era Helena. Arrependida, ela chorava e dizia: “Foi uma canalhice o que fiz com você. Estou sentindo nojo de mim mesma”. Inclusive, havia saído da revista e queria encontrar com ele para pedir perdão. Rafael acabou concordando e marcaram um encontro para o dia seguinte. Chegando ao local combinado, ele se deparou Helena. “Estava acabada, irreconhecível. Não aparentava ser a mulher tão bonita que conheci”, disse. Ela suplicava por perdão, chegou até a se ajoelhar. Rafael perdoou e voltaram a ser bons amigos. Após o encontro, Helena assumiu perante a justiça que o que aconteceu realmente. Atualmente, responde um processo por calúnia e difamação. Ele acredita que fez o certo, uma vez que defende a ideia que a mulher apaixonada é capaz de tudo.
Por Bruna Oliva
Releitura jornalística do texto Helena, de Rubem Braga