A rotina do grupo que tem o objetivo de levar alegria e apoio aos leitos de hospitais
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Há algum tempo já sabia da existência do movimento Oficina da Alegria, um grupo de animação hospitalar de Muriaé. E, quando surgiu a oportunidade de fazer mais uma reportagem para a disciplina de Redação III, me veio esta pauta em mente.
Desde o início da disciplina, eu deveria exercitar mais o olhar e a sensibilidade, já que ao final dela teria de ser feita uma matéria literária. Mas encontrava dificuldades, uma vez que os professores sempre batiam na mesma tecla, de que os textos jornalísticos devem ser objetivos e diretos. Então, para “curar o meu vício” de ser muito objetiva – ainda mais neste tema que permite uma amplitude maior – decidi fazer uma matéria literária sobre o movimento.
Liguei para o idealizador, Adilson Duarte, para falar sobre a matéria e um dia que poderia acompanhá-los. Atencioso, marcou para o dia 03 de maio, às 20h, no Hospital São Paulo. Eu sabia que acompanhá-los ia acabar me sensibilizando e despertando o olhar jornalístico mais amplo. Mas, não fazia ideia do quanto.
A sensibilidade começara a fluir
Antes do horário marcado eu já estava no hospital para visitar meu avô, que tinha acabado de fazer uma cirurgia. Fiquei na janela os esperando. Quando chegaram, desci até a recepção, e lá estava o grupo. Todos estavam com os rostos pintados. Uns vestidos de palhaço, outros apenas com a camisa do Oficina da Alegria, branca, com escritos coloridos e um palhaço ao meio. O idealizador Adilson Duarte, era o mais fantasiado. Vestido de “médico palhaço”, trajava um jaleco com o emblema do movimento, sapatos de palhaço e uma maleta. Assim que cheguei, ele abriu a maleta, semelhante à de médicos, e me entregou vários papéis com textos de apoio e orações.
Cerca de 10 minutos depois, começaram a cantar músicas evangélicas, com um dos integrantes tocando violão. Eram nítidos os olhares curiosos e as expressões de: “Quem são esses cantando em pleno hospital?”. Ao longo do percurso até o elevador e, ao som da melodia, eram distribuídos os mesmos papéis que recebi.
Chegando ao 5º andar, onde ficam os pacientes com convênios particulares e planos de saúde, as portas dos quartos, aos poucos, iam se abrindo para ver o grupo passar. Entraram no primeiro quarto ao final do corredor, uma suíte master, onde estava uma idosa. Ela já estava internada há três meses e, inclusive, nas semanas passadas havia recebido a visita do grupo. Falava com dificuldade, mas o sorriso em seu rosto demonstrava a alegria em vê-los. Sua acompanhante, uma enfermeira do HSP, disse: “Ela estava esperando ansiosamente a visita de vocês de novo”.
De longe, fiquei observando a expressão de felicidade daquela senhora e o grupo, que continuava cantando. Aos poucos, fui me aproximando da cama. Ela segurou a minha mão, ficou me olhando e sorrindo por algum tempo. Começamos a conversar e, balbuciando, ela disse que adorava visitas e estava muito feliz com mais uma presença. Meus olhos se encheram de lágrimas ao longo da conversa. Mas, segurei ao máximo. Ela precisava de sorrisos e não de lágrimas. Disse também que era espírita, mas mesmo assim gostava de ouvir os cânticos evangélicos e orações do Oficina da Alegria. Após mais um tempo de conversa, me despedi e fui junto com o grupo para outro quarto.
Quando saíram do quarto, a acompanhante daquela idosa disse que, no mesmo corredor, estava uma paciente com depressão. Ela havia sido abandonada pelo marido e pelos filhos. Estava sem previsão de alta, uma vez que seu quadro permanecia estável. Então, junto ao grupo, fui até o quarto dela, em frente ao posto dos enfermeiros. Tinha cerca de 40 anos, estava sentada na cama, com a perna enfaixada e a cabeça baixa. Ao ver o grupo chegar, logo ergueu a cabeça.
Ficou calada, apenas observando-os cantar. Quando a música já estava no final, fechou os olhos e começou a chorar. Uma das integrantes chegou perto, acariciou seus cabelos e a abraçou. Nesse momento, me perguntei: “Até aonde vai a crueldade do ser humano?”. Após a música, Adilson pediu que fizéssemos uma roda de oração, pela cura daquela mulher. Mesmo não sendo evangélica, entrei na roda e rezei. Mais uma música foi cantada, com ela acompanhando a melodia, de olhos fechados. Ao final da visita, Adilson prometeu que na, quarta-feira, voltaria com um CD de músicas as quais o grupo cantava. Ela sorriu e agradeceu a visita.
Para a surpresa do idealizador do Oficina, quando ele levou o presente na quarta-feira à noite, recebeu a notícia de que ela havia recebido alta pela manhã. Os enfermeiros disseram que seu semblante triste melhorou satisfatoriamente após a visita do Oficina da Alegria. No outro dia, já estava animada e com boas expectativas para “reconstruir” sua vida.
Infelizmente, aconteceu um imprevisto e tive que ir embora. Não poderia ficar até o final e ir a todas as alas do HSP. Mas, já tinha marcado outra data e, na próxima vez, iria acompanhá-los também em outro hospital da cidade. Apesar do pouco tempo junto deles, já foi um ensinamento para a minha vida e minha futura profissão. Meu olhar jornalístico amplo e a sensibilidade estavam fluindo.
O começo de tudo
O médico norte-americano Patch Adams foi o precursor de animações hospitalares. Desde os anos 60, começou a levar as alegrias do mundo circense aos hospitais, especialmente às alas infantis. Em 1972, criou o Instituto Gesundheit, que atende pacientes gratuitamente. Sua história, inclusive, foi retratada no filme “O Amor é Contagioso”.
A iniciativa de Patch inspirou também outros movimentos pelo mundo afora. No Brasil, um dos mais conhecidos é o Doutores da Alegria. O trabalho foi iniciado por Wellington Nogueira, que já fez parte do movimento americano de Michel Christensen, outro precursor de animação hospitalar. Quando voltou para o Brasil, em 1991, trouxe a ideia, que começou no antigo Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, hoje Hospital da Criança, em São Paulo. Atualmente, possuem sedes regionais, nas cidades de São Paulo, Belo Horizonte e Recife.
Em Muriaé, tudo começou há seis anos. Ao levar o pai a uma sessão de quimioterapia, na Fundação Cristiano Varella, Adilson teve a ideia de iniciar um trabalho, inspirado em animações hospitalares existentes no mundo. Como é de uma igreja evangélica, que sempre realiza trabalhos sociais, ele contatou os outros membros e montaram o Oficina da Alegria. Hoje, visitam os hospitais da cidade duas vezes por semana. Nas segundas-feiras, vão ao Prontocor e ao Hospital São Paulo e, nas terças-feiras, à Fundação Cristiano Varella.
Para não deixar a sensibilidade aflorar em alguns casos, principalmente os terminais, Adilson conta que, antes de cada encontro, fazem uma oração, em busca do controle emocional. “Temos que chegar sorrindo e cantando, não deixando em momento algum transparecer a tristeza”.
Visita em outro hospital
O meu desejo era que o segundo dia de acompanhar o Oficina da Alegria fosse na Fundação Cristiano Varella. Porém, por conta de burocracias para conseguir autorização, acabou não dando certo. Então, marquei com Adilson de ir ao Prontocor, no dia 31 de maio, e depois seguir com eles até o HSP.
Cheguei ao Prontocor um pouco antes do horário marcado e fiquei na recepção esperando. Quando chegou, Adilson – vestido da mesma forma do primeiro dia – me apresentou a outra idealizadora, Adriana Gouvêa, que até então coordenava apenas os encontros na Fundação. Notei que tinham mais pessoas do que o primeiro encontro que participei. Minhas impressões estavam certas. Logo me falaram que aquele dia era o primeiro de mais quatro integrantes. Ainda acanhados e tímidos, estavam apenas com rostos pintados.
O roteiro pelo Prontocor começou na enfermaria, onde havia poucas pessoas. Apenas foram distribuídos os papéis com textos de apoio e orações. Antes de subir para o segundo andar, onde ficavam os pacientes conveniados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), dois médicos pararam Adilson. Ambos elogiaram o movimento e notavam uma mudança eficaz no quadro dos pacientes após as visitas. Disseram também que sempre encontravam os papéis distribuídos ao lado das camas, que os pacientes sempre liam e reliam.
Quando chegamos ao segundo andar, fomos para o maior quarto, onde estavam cerca de 15 pacientes e seus familiares. Enquanto alguns integrantes distribuíam os textos, Adriana contava uma história bíblica de apoio. Depois, voltaram a cantar. Uns, assim como eu, só observavam. Outros, cantavam junto. Os próximos quartos da enfermaria eram pequenos. Não havia nem espaço suficiente para um conforto maior dos pacientes, quanto mais para nós. Então, dividiram-se grupos, repetindo o mesmo ritual de canto e entrega de papéis.
O quarto andar, destinado aos pacientes de convênios particulares e de planos de saúde, estava com apenas cinco quartos ocupados. E nenhum recebeu a visita do Oficina da Alegria. Todos eram recém-operados ou não podiam ter contato com barulhos. Ao final do corredor, estava uma criança com sua mãe. Quando viu Adilson e seu traje circense, começou a chorar. “Ele tem medo de palhaço”, afirmou a mãe. Mas, quando Adilson tirou o nariz e o chapéu, logo parou de chorar e abriu um sorriso. Após o percurso completo no Prontocor, partimos para o HSP.
A volta ao HSP e uma expectativa
Além de acompanhar o Oficina da Alegria naquela noite de segunda-feira, eu também tinha outro objetivo: reencontrar aquela idosa, da suíte master, que tanto me sensibilizou na última ida.
Quando paramos no estacionamento, uma das integrantes disse: “Hoje o Hospital está lotado, olha quantos carros!”. E, realmente, era verdade. Lá mesmo, começaram a cantar e logo se viam as janelas dos quartos se abrindo. Parecia que os acompanhantes procuravam decifrar de onde estava vindo o som. O ritual de visitas era o mesmo do primeiro dia: cantar o tempo todo e distribuir textos de apoio.
No quinto andar, à medida que o grupo passava, eu os acompanhava, ansiosa para chegar ao quarto da idosa. Quando, finalmente, chegamos não era ela que estava lá. Perguntei a uma das integrantes do grupo, se lembrava dela. Ela me disse que sim, mas que já há um tempo não a via mais pelo hospital. Minha expectativa foi “por água abaixo”, como diz a expressão popular. Mas preferi não pensar no que podia ter acontecido e continuei seguindo o movimento.
Desta vez, fui ao quarto andar. Assim que ouviam o som da melodia, acompanhantes e enfermeiros apareciam ao corredor para ver o grupo. Todos os leitos, de todos os quartos estavam ocupados. Os olhares de piedade dos pacientes logo se tornavam de alegria e, mesmo com dificuldades, procuravam ler o que estava escrito nos papéis distribuídos.
Uma das enfermeiras falou a Adilson sobre uma jovem, que tinha tentado suicídio, e estava internada. Ela, inclusive, já havia tentado anteriormente e recebeu alta após uma visita do Oficina da Alegria. “Ela foi até no meu trabalho agradecer a força”. Adilson só não esperava que a garota tentasse, novamente, tirar sua vida tomando soda cáustica. Ao chegar ao quarto, notei que, no criado-mudo, ao lado da cama, estava uma foto dela com as amigas, aparentando estar feliz. Nem parecia a mesma pessoa. Balbuciando, pediu uma música e uma oração para que adiantasse sua recuperação. Com a bíblia nas mãos e em todo o momento de olhos fechados, cantou e orou. Quando o grupo estava se despedindo, ela disse que queria muito acompanhá-los quando estivesse finalmente recuperada.
Após as demais visitas aos quartos e corredores do HSP, nos reunimos, demos as mãos e fizemos uma oração. Posteriormente, cada integrante faria um pedido ou comentário sobre algo do encontro. Quando terminaram, pediram que eu falasse um pouco do que achei do movimento. Agradeci a atenção de todos e afirmei que estava muito satisfeita em ver o trabalho voluntário realizado por eles. Por fim, disse que esperaria voltar logo, já que além de ser uma excelente pauta, também despertou a minha sensibilidade, que até então estava intocável por conta da objetividade jornalística.
Por Bruna Oliva
Sob revisão da professora Adriana Passos