Três irmãs idosas, todas cegas, andavam pelas ruas de Campina Grande tocando ganzá e cantando diversas canções a fim de conseguir algum trocado para ajudar nas despesas. O que a história de Maria, Regina e Conceição, mais conhecidas como Maroca, Poroca e Indaiá, respectivamente, poderia lembrar ao povo brasileiro? A precária aposentadoria dada aos nossos idosos? Ou talvez um apelo às autoridades quanto a miséria do Nordeste? Quem acompanhou o longa A pessoa é para o que nasce, com certeza sentiu algo a mais do que isso. O filme se tornou uma mescla de sensações no público, seja pela tristeza, emoção, indignação.
O sofrimento das “ceguinhas” de Campina Grande não era apenas na rua, por conta de conseguirem míseros trocados, que mal ajudavam a manter a casa. Mas, no próprio âmbito familiar, com a morte do pai, elas tiveram que sustentar toda a família e o novo namorado da mãe com o dinheiro ganho nas ruas. A história se resume em uma frase, que elas mesmas dizem: “O feio trabalha para o bonito comer”.
Mas, quem pensa que a vida delas sempre esteve a mercê do sofrimento, está enganado. Mesmo com as dificuldades financeiras, nunca perderam o ânimo para cantar a vontade de seguir na vida. Isso se torna ainda mais nítido quando uma mulher pergunta a Maroca, na igreja, se elas iriam receber algum dinheiro com as filmagens. Ela simplesmente respondeu: “Se quiserem dar, tudo bem. Se não, não tem problema”.
Com a notoriedade que a produção do filme estava gerando, os holofotes da mídia se viraram para as irmãs. O auge foi a apresentação que fizeram no Festival Panorama Percussivo Mundial (Percpan), de 2000, onde subiram ao palco com Gilberto Gil. O sucesso foi traduzido nos elogios que receberam de muitos dos presentes. “Nunca pensei que fosse receber tanto carinho”, confirma Maroca em uma das cenas.
A parte mais polêmica do longa foi passada ao final. As irmãs aparecem numa praia e, como sempre cantando. Após a cantoria, tiram a roupa e vão nuas para o mar. Mas, no contexto, será que a cena é realmente motivo para polêmicas e criticas? Isso serviu apenas para mostrar a inocência que ainda faz parte da vida de Maroca, Poroca e Indaiá. E a nudez não foi nada perto de tudo o que a produção explorou e desvendou sobre suas vidas e demais intimidades.
Maroca: a protagonista das protagonistas
O filme coloca as três irmãs como personagens principais. Mas, é possível perceber que o destaque foi dado para Maroca. Ela foi a única das irmãs que se casou. E, justamente por conta disso, passou por sofrimentos amorosos, os quais foram abordados no filme. Um deles acabou incluindo Poroca e Indaiá. Ao final do filme, ela diz que guarda um ressentimento das irmãs, uma vez que elas foram amantes de seu falecido marido. Ela confirmou com a frase: “Eu não sei odiar, mas tenho mágoa”.
Além disso, o desprezo de sua filha, Maria Dalva, é apontado como outro fardo para Maroca. A menina, ainda criança, foi adotada e levada para outra cidade. Quando Dalva completou 9 anos, voltou a morar com a mãe e as tias. Ela, que antes era uma menina carinhosa e obediente, com o tempo se tornou grossa e ignorante.
Alguns anos depois, Dalva começou a namorar Ismael e o levou para morar na nova casa das irmãs “ceguinhas” – comprada com o dinheiro ganho nas apresentações. Até mesmo uma mensagem subliminar mostra a falta de respeito da menina pela mãe e as tias. Em várias partes da casa, como janelas e portas, ela escreveu “Ismael & Dalva”, mostrando o desdenho com uma casa comprada com o dinheiro suado de Maroca, Poroca e Indaiá.
Por Bruna Oliva
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