quarta-feira, 16 de junho de 2010

A vida, nos detalhes

Li o texto A vida, nos detalhes, de Carlos Chaparro pela primeira vez estudando para uma prova de Redação III. E, sinceramente, foi um dos mais bonitos que já li.
Organizando minha pasta, o encontrei e li novamente. Vejo o quanto o mesmo me ajudou a despertar meu olhar jornalístico, que hoje já se tornou mais ampliado, em comparação com a objetividade cobrada nos períodos passados.

A vida, nos detalhes

A minha formação jornalística iniciou-se, sem que o soubesse, quando, cinquenta e alguns anos atrás, no idealismo da militância operária em que andei envolvido na juventude, agucei a sensibilidade para a captação dos pequenos fatos do cotidiano, no ambiente onde vivia e trabalhava. Saber “olhar e ouvir” era a base do nosso trabalho de reflexão militante. Nas discussões, havia um método que orientava a construção de conexões entre as ocorrências observadas pelo grupo. Tratava-se de um processo extraordinariamente lúcido de elaborar sentidos e significações na leitura do mundo real. E que tornava possível descobrir como, nos fatos corriqueiros do dia a dia, se manifestavam as mais complicadas contradições do mundo operário – e isso dava rumo às lutas por transformações.

Graças a essa educação militante, aprendi a observar detalhes, e a lhes atribuir complexidades, entendendo-os como manifestações de realidades ocultas.

Isso me ajudou a ser repórter obsessivamente observador. E a cedo descobrir que, sem a riqueza descritiva dos detalhes, não há como dar vida, nem beleza, à narração de ações e emoções humanas, nossas arte. Porque a vida se revela nos detalhes. Quem não os capta deixa escapar a vida.

Talvez esteja aí, na renúncia aos detalhes, ou na incapacidade de entendê-los, o mal maior da reportagem, no atual cenário do jornalismo brasileiro. E eis aí o assunto que proponho à reflexão.

Para ajudar à discussão, aproveito, em trechos, um texto maravilhoso de Helen Keller, que alguém tempos atrás me enviou. Trata-se de um pequeno e precioso ensaio, publicado há pouco mais de 70 anos não Reader’s Digest (Seleções).

Sem poder enxergar nem ouvir o mundo, Helen Keller inventou formas de o ver e sentir, e de com o mundo dialogar intensamente, para aperfeiçoá-lo. Cega e surda desde bebê, ela viveu 88 anos (1880-1968). Aprendeu a ler, a escrever e a falar, diplomou-se com louvor, em 1904, pelo Redcliffe College (Cambridge) e tornou-se conferencista e escritora de referência, autora dos livros A história de minha vida (1903) e O diário de Helen Keller.Vale a pena aprender com ela.


Modos de cegueira

O ensaio publicado na Seleções começa assim:

“Várias vezes pensei que seria uma benção se todo o ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias, no princípio da vida adulta. As trevas o fariam apreciar mais a visão, e o silêncio lhe ensinaria as alegrias do som.”

“De vez em quando”, continua, “testo meus amigos que enxergam, para descobrir o que eles veem. Há pouco tempo, perguntei a uma amiga, que voltava de um longo passeio pelo bosque, o que ela observara. ‘Nada de especial’, foi a resposta.”

“Como é possível, pensei, caminhar durante uma hora pelos bosques e não ver nada digno de nota? Eu, que não posso ver, apenas pelo tato encontro centenas de objetos que me interessam. Sinto a delicada simetria de uma folha. Passo as mãos pela casca lisa de uma bétula ou pelo tronco áspero de um pinheiro. Na Primavera, toco os galhos das árvores, na esperança de encontrar um botão, o primeiro sinal da natureza despertando após o sono do Inverno. Por vezes, quando tenho muita sorte,pouso suavemente a mão numa arvorezinha e sinto o palpitar feliz de um pássaro cantando.”

Mais adiante, Helen Keller desenvolve o exercício de imaginar o que gostaria de ver, se pudesse enxergar ao menos três dias.

“No primeiro dia, gostaria de ver as pessoas. (...) Não sei o que olhar dentro do coração de um amigo pelas ‘janelas da alma’, os olhos. Só consigo ‘ver’ as linhas de um rosto por meio das pontas dos dedos. Posso perceber o riso, a tristeza e muitas outras emoções. Conheço meus amigos pelo que toco em seus rostos. Como deve ser mais fácil e muito mais satisfatório para você, que pode ver, perceber num instante as qualidades essenciais de outra pessoa, ao observar as sutilezas de sua expressão, o tremor de um músculo, a agitação das mãos.”

E Helen nos provoca:

“Será que já lhes ocorreu usar a visão para perscrutar a natureza íntima de um amigo? Será que a maioria de vocês, que enxergam, não se limita a ver por alto as feições externas de uma fisionomia e se dar por satisfeita?”

***

E agora pergunto eu: por onde andam os olhos e a sensibilidade dos repórteres de hoje, que não conseguem (naturalmente, com as devidas, porém raras exceções) captar dos seus entrevistados nada além do nome e da idade? Nem com a fala se preocupam, já que para o registro do que é dito existe o gravador.

E assim se perdem, para a narração, a beleza e a significância das entonações, das ênfases, das expressões, do ritmo, do estilo, da articulação entre falas e gestual, dos enlaces entre a pessoa e o ambiente.


Acordar a criatividade

Nas fantasias de Helen Keller, o segundo dia de visão seria dedicado à observação da natureza – em especial, o milagre da noite se transformando em dia, depois de, na véspera, ter rezado por um pôr de sol colorido. E visitaria museus, para “avaliar o mérito as linhas, da composição, da forma e da cor”. Iria também ao teatro, ao cinema, na esperança de ver “a figura fascinante de Hamlet”, ou “o tempestuoso Falstaff”, em cenários elizabetanos. E para captar em plenitude a graça de uma bailarina, que a cegueira só vagamente lhe permitia imaginar.
O terceiro dia seria passado no mundo do trabalho e dos negócios.“

A cidade seria o meu destino. Primeiro, numa esquina movimentada, apenas olhando para as pessoas, tentando, por sua aparência, entender algo sobre o seu dia a dia. (...) Tenho a certeza de que o colorido dos vestidos das mulheres, movendo-se na multidão, deve ser uma cena espetacular.”

E termina assim a mensagem de Helen Keller:

“Eu que sou cega, posso dar uma sugestão àqueles que veem: usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. E o mesmo se aplica aos outros sentidos. Ouçam a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objeto como se amanhã perdessem o tato. Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não sentissem aromas nem gostos. Usem ao máximo todos os sentidos; gozem de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contato fornecidos pela natureza (...).”

***

Temos aí um belo roteiro para despertar e sacudir a criatividade jornalística, que a cultura dos manuais de redação anestesiou e deseducou. Ah! Como o hábito desses exercícios faria bem aos que têm a responsabilidade da narração jornalística!


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